8 02 2007

Ciência e Religião sem respostas…

O cientista Alexandre Quintanilha considerou que «nem a Ciência, nem a Religião» têm «respostas claras para o debate sobre o aborto», situando-o no plano das «convicções».

Físico e biólogo, Alexandre Quintanilha é director do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) do Porto e foi (…) entrevistado sobre a interrupção voluntária da gravidez.

Assumindo-se pelo voto «Sim» no referendo de 11 de Fevereiro, o cientista esclareceu que preferia arranjar soluções para não haver aborto mas considera «inconcebível criminalizar as mulheres que o praticam, numa decisão que é sempre de grande sofrimento pessoal».

«Ninguém quer o aborto. Eu não sou a favor do aborto mas contra a criminalização», respondeu a Judite de Sousa, clarificando a sua posição. Em defesa da descriminalização, Alexandre Quintanilha rejeitou argumentos radicais contrários, evocando que «não passaria pela cabeça de ninguém condenar uma mulher que praticou um aborto por homicídio premeditado, a que corresponde na Lei portuguesa 25 anos de cadeia».

«Por isso é que a lei considera que uma pessoa não é a mesma coisa do que um embrião», salientou. Para o cientista, há uma evolução da complexidade do ser desde a primeira célula que aparece como embrião e muitas dúvidas sobre o momento decisivo para a formação da pessoa.

«A primeira célula que aparece como embrião é o resultado de duas células e obviamente que essas duas células são vivas e são humanas: a que vem do pai e a que vem da mãe. Não há vida humana partindo de qualquer coisa que não é vida e que não é humana», disse.

Quanto ao período das 10 semanas, comentou que é por essa altura que começam a aparecer os indícios de reacções neuronais e que o embrião ainda está muito longe de ter muitos dos processos complexos de desenvolvimento.

«Durante muito tempo, dizia-se que a diferença entre o Homem e os animais era a capacidade de pensar, de raciocinar, de escolher. Isso nunca acontece dentro do útero e às 10 semanas estamos ainda muito seguros em relação a uma série de coisas que os embriões ainda não atingiram», declarou.

Alexandre Quintanilha recusou que a Ciência e a Religião rivalizem num debate que se tende a radicalizar sobre o tema. «Tenho medo das certezas e, neste debate, nem a Ciência, nem a Religião, trazem respostas claras.»

«Na Ciência, onde é que se decide qual é a altura? O aparecimento de um a ser que parte de um ovo envolve um aumento enorme da complexidade dos sistemas que se estão a formar. Qual é o momento? É quando aparece a dor, os primeiros mecanismos neuronais a funcionar? As primeiras hormonas a serem produzidas? Eu não sei!», respondeu peremptório.

No campo da Religião, Alexandre Quintanilha socorreu-se de São Tomás de Aquino e de Santo Agostinho para recordar que também eles falavam «dos mecanismos da introdução da alma, da humanização do feto», questionando quando é que tal acontece.

«Tem muito a ver com convicções e bom senso e com a noção de saúde pública», concluiu.

Fonte: Lusa in SOL

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