Hormonas adolescentes e novas tecnologias. Estão reunidos os ingredientes básicos para uma receita de problemas. O sexting é a palavra inglesa que junta sex com texting e que, em termos gerais, quer dizer que os jovens do século XXI andam por aí a escrever mensagens picantes e a tirar fotografias a eles próprios, nus ou seminus, enviando-as de seguida para os telemóveis de namorados e amigos. Brincadeiras inocentes e sexy, dizem eles. Dissolução moral, dizem os educadores. Brincadeiras perigosas, dizem os pais. Pornografia infantil, clama a Justiça.

Apesar de as imagens em trajes íntimos (ou sem eles) serem normalmente destinadas aos namorados e namoradas, elas acabam muitas vezes em telemóveis alheios, graças à facilidade de partilha destes ficheiros. Daí até à Internet, onde as fotografias se espalham como fogo em capim seco pelas redes sociais, é um pequeno passo. A humilhação pública das vítimas já causou pelo menos um suicídio nos Estados Unidos, em 2008, e mais do que uma condenação por difusão de pornografia infantil.
Jessica (Jessie) Logan tinha 18 anos quando pegou numa corda e se enforcou, no seu próprio quarto. Várias semanas antes tinha enviado fotos suas, nua, ao rapaz com quem saía há cerca de dois meses. Esse mesmo rapaz reencaminhou as imagens para quatro amigas, e quando Jessie deu por ela o liceu andava a chamar-lhe nomes pelas costas. “Galdéria” era um deles. O mais eufemístico. De simpática e extrovertida cheerleader, a jovem transformou-se numa finalista deprimida e fugidia, que muitas vezes preferia ficar dentro do carro, no parque de estacionamento, porque não tinha coragem de entrar no edifício da escola e enfrentar os colegas.
A 3 de Julho do ano passado, a pressão atingiu o seu auge e Jessie cedeu. Pendurou-se numa corda e preferiu morrer. O caso chocou Cincinnati (Ohio) e a nação. Afinal que tipo de brincadeiras perigosas são estas em que os filhos da América andam metidos?
Um em cada cinco adolescentes admite sexting
Os pais de Jessie, Albert e Cynthia Logan – que consideram que as autoridades liceais não fizeram o suficiente para proteger a sua filha – tornaram a história pública e esperam agora que os EUA adoptem novas leis para combater este fenómeno que está a fazer vítimas mas que não apresenta nenhum culpado. “Queremos que seja aprovada uma lei”, indicou a mãe, Cynthia, ao Cincinnati.com. “É uma epidemia nacional. Ninguém está a fazer nada – nem as escolas, nem a polícia, nem os adultos, nem os advogados, ninguém”.
O caso de Jessie, até agora o único conhecido com este desenlace dramático, não é um caso isolado numa nação em que os adolescentes sentem cada vez mais pressão para embarcarem no fenómeno do sexting.
Em Outubro do ano passado, uma aluna do 8.º ano passou a noite num centro de detenção juvenil depois de uma fotografia sua, toda nua, ter acabado no ecrã do telemóvel do seu treinador, depois de o destinatário original da fotografia a ter reencaminhado para o professor. Em Janeiro último, três adolescentes (com idades entre os 14 e os 15 anos) que, alegadamente, enviaram fotografias delas próprias, nuas ou seminuas, através do telemóvel, e três colegas seus (entre os 16 e os 17 anos) de um liceu da Pensilvânia foram acusados de pornografia infantil, relata a CBS.
Igualmente este ano, no Wisconsin, um rapaz de 17 anos foi acusado de ter em sua posse pornografia infantil, depois de ter colocado online fotografias da sua namorada de 16 anos tal como veio ao mundo, indica a ABC. No estado de Alabama, as autoridades também detiveram quatro adolescentes que tinham trocado entre si fotografias em que apareciam todos nus. Em Rochester, estado de Nova Iorque, um rapaz de 16 anos poderá vir a cumprir uma pena de sete anos de prisão por ter reenviado uma fotografia da sua namorada de 15 anos aos seus amigos.
Em resumo, adolescentes de pelo menos uma dúzia de estados norte-americanos foram acusados nos últimos meses por posse e disseminação de pornografia infantil. Caso sejam condenados, muitos destes adolescentes podem ficar com o cadastro manchado com a expressão que ninguém nos Estados Unidos quer ouvir: “sex offender”. Pior: este rótulo pode ficar colado aos jovens por muitos e maus anos. Nos EUA estas coisas são levadas muito a sério.
De acordo com um estudo recente levado a cabo pelo National Campaign to Support Teen and Unplanned Pregnancy (a comissão nacional de prevenção da gravidez indesejada entre as adolescentes), uma em cada cinco adolescentes admitiu já ter participado em práticas de “sexting”. E? “O que é que vamos fazer? Prender 20 por cento dos adolescentes americanos?”, pergunta Lisa Bloom, a consultora legal da CBS News.
Proteger os adolescentes de si próprios
Depois da trágica morte de Jessica Logan, a sua mãe começou a trabalhar em parceria com o advogado Parry Aftab, especialista em fenómenos de segurança online e cyberbullying e ambos planeiam ligar o nome de Jessie a uma campanha nacional para esclarecer os adolescentes sobre os perigos do sexting. Aftab, com escritório em Nova Iorque, tem sido até agora o catalisador de uma rede de voluntários que trabalha para pôr fim ao cyberbullying e que opera a partir de dois sites, avança o Cincinnati.com: o wiredsafety.org (a maior e mais antiga organização de ciber-segurança dos EUA) e o stopcyberbullying.org.
“As escolas precisam de entender que as nossas crianças estão a alvejar-se a elas próprias e que a tecnologia é a arma usada”, indicou Aftab, citado pelo Cincinnati.com. “Nenhuma escola sabe o que fazer. Muitas pensam que o problema não é delas. Querem fechar os olhos e pôr os dedos nos ouvidos, dizendo que isso é um problema a resolver em casa”.
O problema é que o truque do sexting é precisamente a sua dissimulação. Um jovem pode estar a jantar à mesa de família e a mandar mensagens eróticas e pornográficas a quem queira, sem que os pais sequer suspeitem que, entre uma garfada de batata e outra de arroz, os filhos estão a escrever mensagens libidinosas nas suas próprias barbas. E mesmo que apanhem os telemóveis e lhes leiam as mensagens, nem sempre é fácil decifrar acrónimos como “IMEZRU” (“I’m easy, are you?”/”Eu sou fácil, e tu?”)
Em todo este fenómeno, os pais têm um papel fundamental. Falar abertamente sobre o problema é meio caminho andando para a prevenção, deixando bem claro que a partir do momento em que o adolescente carrega em “enviar”, o mal fica feito, passando a estar à mercê daquilo que a outra pessoa pretende fazer com a sua mensagem.
“É muito importante que os pais se sentem e conversem com os seus adolescentes e os ajudem a desenvolver as suas aptidões emocionais e de intimidade”, indicou à CBS a terapeuta sexual Joyce Joseph.
in Público
“Hormonas adolescentes e novas tecnologias. Estão reunidos os ingredientes básicos para uma receita de problemas.”
Acho que está tudo dito!
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