Só para ti… (2)

7 03 2008

“Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?”

Fernando Pessoa

“O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.”

Mário Quintana

Parabéns, meu amor…


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Agora que já pouco te falta

3 03 2008

Acabei de lanchar no cafezinho em que como uma torrada e voltei para aqui, o lugar onde escrevo e onde desde meados de novembro não escrevo nada. Terminei um livro por essa altura, para ser publicado em Portugal no fim do ano que vem, e nestes mais de dois meses nem uma linha. Sento-me à mesa e nada. Há quatro ou cinco dias uma coisa começou a formar-se dentro de mim. Não posso dizer que seja uma ideia porque não é uma ideia, são filamentos, vozes, vagas caras que se desvanecem. Dá-me a sensação que é o próximo trabalho. Decidi começar no dia 25 de fevereiro, na ilusão que até lá o material se defina um pouco. Quero fazer o meu livro mais importante, o definitivo, o último, tão importante que, depois dele, já não precise de compor nada. Então saio e vou para um banco de jardim contar pombos e assistir à bisca dos reformados. Talvez ponha um anúncio de convívio no jornal. A semana passada li um desses em que o cavalheiro começava por anunciar que tinha carta de ligeiros e pesados. Fiquei a sonhar com a carta de ligeiros e pesados o dia inteiro. Noutro uma senhora pedia um homem educado e não fumador. Imaginei uma viúva a beber chá de tília a uma camilha com braseira dentro. Talvez os nossos dedos se encontrassem no bule. Retratos de defuntos, incluindo um marido sombrio numa moldura com rosinhas de cobre, e ela a inspeccionar-me a roupa, suspeitosa. Dedos ossudos, quase transparentes, que deixavam que os acariciasse um momento antes de se escaparem numa vergonha corada. Um gato a desaparecer quando fechava os olhos, tornando-se bibelot. Cortinas a esconderem a rua. Sofás protegidos por plásticos. Uma esfregona espreitando num desvão.

Portanto desde meados de novembro que não escrevo nada. Espero. Normalmente acho que acabei, que não volto a ser capaz. Agora apareceu-me este fiozinho de esperança. Mas o que me vem à cabeça é tão difícil de fazer, tão ambicioso, tão para além das palavras e das minhas forças. Só começo quando estou bem seguro de não ser capaz. Não seria mais fácil beber chá de tília a uma camilha com braseira dentro? 22 de janeiro hoje

um dia, sei lá porquê, longo, longo. Sol e pombos na rua, criaturas vestidas de verde a multarem ferozmente os automóveis estacionados, uma rapariga que caminha como os peixes de aquário, um espasmo de barbatanas e pronto. Saio da porta, volto à mesa. Onde é que eu ia? E quem se importa onde é que eu ia, onde é que eu vou? As cartas por responder acumulam-se na mesinha. Caixotes de livros. Sorrisos de pessoas de quem gostei e a morte levou. Levou mas continuam comigo, tão presentes. Respiram. De algumas oiço–lhes a voz. Olá a todos, deixem-se estar aí. Embora finja que não, necessito tanto de companhia. Um estar aí que é já muito. E daqui a nada noite e eu dissolvido nela. Dissolvido nela. Dissolvido nela. Até não me ficar nem uma ideia de quem sou. Cavalheiro sem carta de ligeiros e pesados procura senhora nas mesmas condições, quer dizer sem uma ideia de quem é. Se abrir a torneira ouvirei o ruído do mar? Em pequeno, na cama, as ondas chegavam até mim, uma após outra, misturadas com o vento nos pinheiros e o imenso mistério da vida. Escutava-as na certeza de ser feliz e eterno. Amanhecia e o mar calava-se. Via-o da janela no mesmo sítio, em silêncio, ele que no escuro encostava a cabeça aos caixilhos para me ver dormir e me seguia com aqueles olhos que o mar tem, ao mesmo tempo zangados e cheios de lágrimas e, no corredor da casa, os passos da insónia, tac, tac, tac. Não sei se a 25 de fevereiro começo a escrever. Mudo de posição na cadeira, volto a página, pergunto ´

- Como é que se faz um livro?

porque continuo sem saber como se faz um livro. Não me acho capaz de explicar como fiz os que até agora se publicaram, o que lembro melhor é o esforço enorme e, por vezes, mais raramente, uma alegria indizível. Ainda existirá algum em mim? O mar e o cacto a seguir ao muro, a oscilar rigidamente. Agarra-te ao teu fiozinho de esperança, experimenta. Começa a preparar a mão, coisa que contigo leva tempo. Tenta que aquilo que existe em qualquer parte tua caminhe na direcção certa onde as palavras te esperam, adormecidas. Acorda-as devagarinho, não escutes os passos da insónia, tac, tac, tac, no corredor. Tens 10 anos, 20 anos, tens todas as idades ao mesmo tempo, estás cheio de medo mas começa. O mar, o cacto, o sol, os pombos. Deixa tudo o que não seja o livro e começa. Se tiveres sorte é o teu livro. Se tiveres ainda mais sorte o teu último livro, a razão de teres nascido. Depois, sem te voltares para trás, acenas adeus à medida que te afastas para um jardim de reformados até que a morte te diga

- Já vai sendo tempo, filho

e poderás sorrir-lhe como a uma namorada antiga que nunca envelheceu.

Sorrir-lhe

(entendes o que eu digo?)

numa mistura de timidez e confiança, porque

(entendes mesmo o que eu digo?)

te tornarás feliz e eterno.

António Lobo Antunes in Visão

Este Senhor escreve de uma maneira…


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Estou tentando aprender…

27 03 2007

Que ter uma criança adormecida nos braços é um dos momentos mais pacíficos do mundo;
Que ser gentil é mais importante do que estar certo;
Que eu sempre posso fazer uma prece por alguém quando não tenho a força para ajudá-lo de alguma outra forma;
Que não importa quanta seriedade a vida exija de você, cada um de nós precisa de um amigo brincalhão para se divertir juntos;
Que algumas vezes tudo o que precisamos é de uma mão para segurar e um coração para nos entender;

Eu aprendi…
Que deveríamos ser gratos a Deus por não nos dar tudo que lhe pedimos;
Que debaixo da “casca grossa” existe uma pessoa que deseja ser apreciada, compreendida e amada;
Que Deus não fez tudo num só dia; o que me faz pensar que eu possa ?
Que ignorar os fatos não os altera;
Que quando você planeja se nivelar com alguém, apenas esta permitindo que essa pessoa continue a magoar você;
Que o AMOR, e não o TEMPO, é que cura todas as feridas;
Que a maneira mais fácil para eu crescer como pessoa é me cercar de gente mais inteligente do que eu;
Que ninguém é perfeito até que você se apaixone por essa pessoa;
Que a vida é dura, mas eu sou mais ainda;
Que as oportunidades nunca são perdidas; alguém vai aproveitar as que você perdeu.
Que quando o ancoradouro se torna amargo a felicidade vai aportar em outro lugar;
Que devemos sempre ter palavras doces e gentis pois amanhã talvez tenhamos que engoli-las;
Que não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a respeito;
Que só se deve dar conselho em duas ocasiões: quando é pedido ou quando é caso de vida ou morte;
Que quanto menos tempo tenho, mais coisas consigo fazer…

William Shakespeare

Neste Dia Mundial do Teatro, lembrar um dos principais autores com mais obras adaptadas a esta arte.

William Shakespeare (1564-1616), dramaturgo e poeta inglês.

É considerado por muitos o mais importante autor da língua inglesa e um dos mais influentes do mundo ocidental. Seus textos e temas permaneceram vivos até aos nossos dias, sendo revisitados com frequência pelo teatro, televisão, cinema e literatura.

Entre suas obras é impossível não ressaltar Romeu e Julieta, que se tornou a história de amor por excelência e Hamlet, que possui uma das frases mais conhecidas da língua inglesa: “To be or not to be: that’s the question” (Hamlet 3/1).

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E porque é dia da árvore e da poesia…

21 03 2007

…alguns textos de “Poesia da Árvore“, antologia poética publicada em 1979.

O Zambujeiro” de Sebastião da Gama:

Deus disse: “O Zambujeiro nasça”.
Viril, rompeu da terra o Zambujeiro.
O tronco é o dum homem das montanhas.
São mãos de cavador seus ramos. Só as folhas,
Delicadas, suaves… Pela noita,
Quando tudo se cala, mesmo os pássaros,
O Zambujeiro canta…

(in Pelo Sonho é que vamos)

“Árvore” de António Ramos Rosa

Forço e quero ao fundo delicadamente
como subindo no sentido da seiva
espraiar-me nas folhas verdejantes,
espaçado vento repousando em taças,
mão que se alarga e espalma em verde lava,
tronco em movimento enraizado,
surto da terra, habitante do ar,
flexíveis palmas, movimentos, haustos,
verde unidade quase silenciosa.

(in Ocupação do Espaço)

“A um carvalho” de Miguel Torga

Forte como um destino,
Calmo como um pastor,
A sarça ardente é quando o sol, a pino,
O inunda de seiva e de calor.

Barbas, rugas e veias
De gigante.
Mas, sobretudo, braços!
Longos e negros desmedidos traços,
Gestos solenes duma fé constante…

(in Diário)

Forbela Espanca:

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vêde:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

(in Charneca em Flor)

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Só para ti…

7 03 2007

O meu lado esquerdo
é mais forte do que o outro
é o lado da intuição
É o lado onde mora o coração

O meu lado esquerdo
Oriente do meu instinto
É o lado que me guia no escuro
É o lado com que eu choro e com que eu sinto

Meu é o meu foi o meu lado esquerdo
Que me levou até ti
Quando eu já pensava
Que não existias para mim no mundo

O meu lado esquerdo não sabe o que é a razão
É ele que me faz sonhar
É ele que tantas vezes diz não

Meu é o meu foi o meu lado esquerdo
Que me levou até ti
Quando eu já pensava
Que não existias para mim no mundo

Clã - Lado Esquerdo Letra: Carlos Tê

Parabéns, meu amor…

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Lembrar José Afonso

23 02 2007

Canção De Embalar

Dorme meu menino a estrela d’alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p’ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d’alva o seu fulgor

Perde a estrela d’alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu’inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

zeca2sw

O cantor José Afonso, o autor de «Grândola, Vila Morena», senha da revolução de 25 de Abril de 1974, morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987 com 57 anos.

Nascido em Aveiro, a 02 de Agosto de 1929, José Afonso cresceu entre Angola, Moçambique, Belmonte e Coimbra, onde frequentou o Liceu D. João III e a Faculdade de Letras e onde se iniciou também na balada, com o mestre da guitarra Flávio Rodrigues.

Em 1983, foi-lhe diagnosticada a esclerose múltipla, de que viria a falecer, e foi nesse ano que José Afonso realizou os últimos espectáculos ao vivo, nos Coliseus de Lisboa e Porto, sendo então editados «José Afonso Ao Vivo no Coliseu» e «Como Se Fora Seu Filho».

20 anos depois do seu desaparecimento, fica para sempre a sua obra.

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A força que vem de dentro

22 02 2007

Tem sempre presente que a pele se enruga, o cabelo embranquece,

os dias convertem-se em anos…

Mas o que é mais importante não muda;

A tua força e convicção não têm idade.

O teu espírito é como qualquer teia de aranha.

Atrás de cada linha de chegada, há uma de partida.

Atrás de cada conquista, vem um novo desafio.

Enquanto estiveres viva, sente-te viva.

Se sentes saudades do que fazias, volta a fazê-lo.

Não vivas de fotografias amarelecidas…

Continua, quando todos esperam que desistas.

Não deixes que enferruje o ferro que existe em ti.

Faz com que em vez de pena, te tenham respeito.

Quando não conseguires correr através dos anos,

Trota

Quando não consigas trotar, caminha.

Quando não consigas caminhar, usa uma bengala.

Mas nunca te detenhas!!!.

Madre Teresa de Calcutá

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Para ti…

14 02 2007

Não há…

Que posso eu dizer,

que possa ter importância?

Não há dias, nem há meses,

nem quilómetros nem distância.

Não há perto nem há longe,

nem o tempo que corre em vão.

O meu tempo só é medido,

no bater do teu coração.

Não há alegria nem tristeza,

nem dias e noites sem fim.

Só tu, minutos e segundos,

a viver dentro de mim.

Mas que posso eu dizer…

que possa ser o bastante?

Apenas e só, que te amo.

Agora e por diante.

de Luis Nascimento

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DIA DE NATAL

25 12 2006

Hoje é dia de era bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.

É dia de Natal.

Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão




Solidão

21 12 2006

“Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo… Isto é carência!Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar… Isto é saudade!Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes para realinhar os pensamentos… Isto é equilíbrio!Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente… Isto é um princípio da natureza!

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado… Isto é circunstância!

Solidão é muito mais do que isto…

SOLIDÃO é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.”

Fátima Irene Pinto 




Não rima mas é poesia…

14 12 2006

Quem morre?

Morre lentamente quem não viaja,quem não lê, quem não ouve música,

quem não encontra graça em si mesmo…

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece…
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se
da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço
muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.


Pablo Neruda




Um dia…

4 12 2006



Um dia,
quando a ternura for a única regra da manhã,

acordarei entre os teus braços.
A tua pele será talvez demasiado bela,
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.

Um dia,
quando a chuva secar na memória,

quando o inverno for tão distante,
quando o frio responder devagar
com a voz arrastada de um velho,

estarei contigo
e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela


Sim, cantarão pássaros, haverá flores,
mas nada disso será culpa minha,

porque eu acordarei nos teus braços
e não direi nem uma palavra,

nem o príncipio de uma palavra,
para não estragar a perfeição da felicidade.



 José Luis Peixotoi{content: normal !important}i{content: normal !important}




Lembra-te…

27 11 2006


Lembra-te…

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Mário Cesariny
(1923-2006)




Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

(1923-2006)




5 minutos de tudo…

25 11 2006

























 









Give me please five minutes of everything
Those days when you wake up
And there's no one by your side
My arm slides slowly to my left side
And to my right side, there's no one there
To kiss you or to hear you
And you go out of bed
Thinking in those days that you need
You used to talk and talk about
And everything that stops your attention
You used to talk, talk about
Everything
Those days when you walk at the bar
And try to keep a conversation with somebody else
And no one out there you could sit down or walk
There's no one there.
Five minutes of love
Five minutes of hate
Five minutes I try to call your name
Five minutes of passion
And no one knows the right place to go
No meaning or just self-control maybe
And you walk out of there
You need to talk with somebody else
And to know the problems are waiting for
Outside the door
Are waiting for
The clock won't stop
And even if it stops
Five minutes of love
Five minutes of hate
Five minutes I try to call your name
Of passion
Five minutes of everything
Of everything
Maybe you want to talk about old questions
Right next to my ear
But I don't care about those silly things
Cause all I need is five minutes of everything

Five minutes of everything dos The Gift



Porque gostei…

22 11 2006

Não, não é cansaço…
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo…

Não, cansaço não é…
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não.

Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como…
Sim, ou por sofrer como…
Isso mesmo, como…

Como quê?…
Se soubesse… não haveria em mim este falso cansaço.

Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
Porque oiço, vejo.

Confesso: é cansaço!…

Álvaro de Campos