Crónica do hospital

“Não quero aqui ninguém. Quero ficar sozinho a medir isto, a minha doença, a minha mortalidade, o meu espanto. Por mais que repetisse – Um dia destes não acreditava que o dia destes chegasse.
E agora, Março de 2007, veio com a brutalidade de uma explosão no peito. Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como e velhice e a decadência. Tão reles. O olhar de pena dos outros, palavras de esperança em que não têm fé, dúzias de histórias de criaturas que passaram por isso que tu tens agora e estão óptimas. Recuperando aos poucos da anestesia vou dando-me conta de que um bicho horrível em mim, ratando, ratando.
Dois sentimentos opostos
Vou lutar, não vou lutar
e o primeiro fala antes do outro
– Chamem o Henrique.
Um Grande cirurgião, um colega de curso, um amigo, uma das muito poucas pessoas a quem entregaria sem hesitações o meu corpo. Este texto talvez vá um pouco desconexo, desculpem, ainda estou fraco, a cabeça tem lacunas, falta-me vocabulário, há mais de nove dias que não pegava numa caneta e é dificil reaprender a andar. O meu medo que o Henrique não pudesse. Mas disse a quem lhe fala
– eu vou já lá abaixo
e enquanto me faziam uma TAC vi-o atrás do vidro, sério, a apertar a boca. Depois veio ter comigo
– Opero-te amanhã de manhã
e queria que soubesses, Henrique, a esperança que as tuas palavras me trouxeram. Não só esperança: o que não sei dizer. Ou antes sei mas tenho vergonha. Contento-me em pensar que tu sabes também. Sei que sabes. Basta a maneira de protestares, de mão contrariada
– Não me agradeças, não me agradeças
basta o teu afecto pragmático diante das minhas perguntas
– Uma coisa de cada vez
o modo como me disseste
– Eu trato-te
como diante da minha aflição, aflição sim senhor, deixemo-nos de tretas
– E se houver metástases no fígado?
– Eu tiro-as
e eu tentando pôr-me no teu lugar pensando como deve ser penoso operar um amigo. Um amigo desde os dezoito anos. Em como deve ser penoso, em como deve ter sido penoso para o Henrique trabalhar com uma carga afectiva em cima dele, naquelas circunstâncias.
Mexeu-me todo: tirou a vesícula, tirou o apêndice, até as glândulas seminais andou a ver. Isto há dez dias, onze dias. Escrevo do hospital onde estou, é a primeira vez que uma pessegada destas me sucede.
Magro,magro. Com uma algália ainda: é uma sorte que uma algália ainda, tive mil trezentos e seis tubos a saírem de mim. Espero que na revista entendam a caligrafia tremida da crónica. Suceda o que suceder, uma coisa tenho por certa: isto alterou, de cabo a rabo, a minha vida.
Ignoro em que sentido, ignoro como.
Sei que alterou. Santa Maria. O que farei daqui para a frente, se existir daqui para a frente? Livros, claro, foi para isso que me mandaram para o meio de vós. Quando isto sucedeu lutava com um, tinha outro pronto,já antigo, pronto há um ano e tal, para Outubro. Para dar tempo aos tradutores de o traduzirem e saírem mais ou menos na mesma altura que em Portugal. Esse livro tem a melhor prosa que fiz até hoje, parece recitado por um anjo.
Aquele em que trabalhava é apenas um embrião, cerca de metade do primeiro esboço, falta-lhe quase tudo. A partir de agora, se calhar, falta-lhe tudo.
Voltarei a ele? Uma coisa de cada vez, não é Henrique? Vamos a ver. De uma forma ou outra a gente luta sempre.
Momentos de quase esperança, momentos de desânimo. Não: momentos de muito desânimo, e momentos de desânimo maior, como se me obrigassem a escolher entre o que não vale nada e o que vale ainda menos.
Este mês deram-me um prémio literário. Estão sempre a dar-me prémios e claro que tenho prazer nisso, não sou mentiroso nem hipócrita. Toda a gente foi muito simpática.
e sem que eles sonhassem
(sonhava eu)
o cancro
ratando, ratando, injusto, teimoso, cego. Mói e mata. Mata. Mata. Mata. Mata.
Levou-me tantas das pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me? Sim. Não. Sim. Não – sim. Por enquanto meço o meu espanto, à medida que nas árvores da cerca uns pardais fazem ninho. A primavera mal começou e eles truca, ninho. Obrigado, Senhor, por haver futuro para alguém.”

António Lobo Antunes in Revista Visão

O Xicórias & Xicorações deseja as rápidas melhoras a um dos grandes escritores da língua portuguesa.


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One comment

  1. Querido António,
    há muita gente que quer que viva, que deseja ler ainda muitas mais palavras que saem dessa fantástica forma de escrever.

    Só uma questão: para quando o Nobel? Proximamente, espero.

    Quando parece que já não há futuro, lembro-me sempre de um poema, “Certeza” de Miguel Torga que conta assim:

    «Sereno, o parque espera.
    Mostra os braços cortados.
    E sonha a Primavera
    com os seus olhos gelados.

    É um Mundo que há-de vir
    Naquela fé dormente.
    Um sonho que há-de abrir
    em ninhos e semente.

    «Basta que um novo sol,
    Desça de um velho céu
    e diga ao rouxinol
    que a vida não morreu!»

    Miguel Torga

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