Internacionalização do mundo

2 05 2007

Durante um debate numa universidade nos Estados Unidos, o ex-governador do Dfe e ex-ministro da educação brasileiro Cristóvam Buarque, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazónia, uma ideia que surge com alguma insistência nalguns sectores da sociedade americana. O jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Esta foi a resposta de Cristóvão Buarque:

“De facto, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazónia. Por mais que os nossos governos não tenham o devido cuidado com esse património, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazónia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade.

Se a Amazónia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro… O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazónia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extracção de petróleo e subir ou não o seu preço.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazónia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazónia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazónia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas a França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo génio humano. Não se pode deixar esse património cultural, como o património natural Amazónico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito tempo, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante este encontro, as Nações Unidas estão a realizar o Fórum do Milénio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova Iorque, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

Se os EUA querem internacionalizar a Amazónia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil.

Nos seus debates, os actuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a ideia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de comer e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como património que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazónia.

Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um património da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar, que morram quando deveriam viver.

Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazónia seja nossa. Só nossa!”

Este artigo foi publicado no “The New York Times”, “Washington Post” entre outros, mas foi censurado pelos média mais conservadores americanos, afectos ao governo.

Tenho a sensação de que não houveram muitas perguntas a seguir a este brilhante discurso…


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5 responses

2 05 2007
Conde Sérgio De Venardis

P. S.: o Cristóvão Buarque, infelizmente, não é mais o Ministro da Educação, uma pena… mas o que não torna a declaração menos grandiosa. Abraço.

2 05 2007
G

Obrigado pela dica, Conde Sérgio!
Já está corrigido.
É de politicos destes que o mundo precisa.
Abraço!
Volte sempre!

2 05 2007
fly

Excelente discurso, mais palavras para quê, se está tudo dito.
Confesso que no inicio estava reticente quanto à resposta da pergunta o que acha em relação à internacionalização da Amazónia, mas tenho que dizer que foi muito pertinente e levantou uma série de questões que deveriam ser debatidas, como são o caso das armas nucleares nas mãos dos EUA, do petróleo, etc.

abraço

3 05 2007
Donato

O Cristóvam Buarque (sim, é assim que se escreve – um pouco antiquado, hem?) foi ministro da Educação durante pouco mais ou menos de um ano do governo Lula. Quando eu soube de sua nomeação, pensei: “bem, agora não temos mais um idiota no ministério; ele poderá até agir como um idiota, mas será outro caso”. Desnecessário dizer que ele não conseguiu pôr em prática aquilo que tencionava para o Brasil, causando certo mal-estar no governo, talvez por suas críticas. Foi destituído do cargo de maneira pouco honrosa: via fax ou telefone.
No ano passado, foi candidato à presidência, tendo como lema a “revolução da educação”. Conseguiu pouco mais de 3% dos votos, nos quais se inclui o meu. Era um cavalheiro nos debates e conquistou certa simpatia (não apoio) da imprensa, tanto de direita quanto de esquerda. Tinha pouquíssimo apelo midiático e até um ar um tanto melancólico, que é o ar de todos os professores no meu país. Pareceu-me uma pessoa decente.

7 05 2007
G

Fly:
Obrigado pelo comentário! Esperemos que esses assuntos sejam debatidos…
Abraço!

Donato:
Obrigado pela “achega”. E já alterei o nome!
Volta sempre!
Abraço!

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