Lições de democracia

José Sócrates foi à Rússia tirar fotografias na Praça Vermelha e aproveitou para se reunir com esse democrata formado nas escolas do KGB, Vladimir Putin. Ao lado de Putin, e seguramente agradecido por este ter mandato fechar a Praça Vermelha para lhe permitir o jogging saloio, Sócrates afirmou que “ninguém, nem a Europa nem a Rússia, deve dar lições a ninguém” em matéria de democracia e direitos humanos.

Não se percebe de que ponto de vista a Rússia poderia pretender dar essas lições à “Europa” (Sócrates refere-se à UE, suponho…). Mas sim, “a Europa” pode dar lições de democracia à Rússia. Sim, “a Europa” pode dar lições de direitos humanos à Rússia. Optou por não o fazer. Tenho dúvidas que seja opção da qual se deva orgulhar – por muitas benesses que isso lhe traga – ou proclamação com a qual o primeiro-ministro devesse encher a boca. Porque não é tudo igual, ao contrário do que quer fazer crer este relativismo politicamente correcto.

Eu sei o que é a realpolitik, os interesses, os negócios, a geoestratégia, isso tudo. Tenho umas ideias sobre o que é democracia e o que são direitos humanos – e também tenho lido umas coisas sobre esta Rússia (se o PM não encontrou nada de pouco recomendável nos dossiers que os assessores lhe prepararam, pode sempre consultar qualquer jornal de referência europeu, a informação é abundante). Mas não sei em que manual de realpolitik está escrito que Sócrates tem que ir à Rússia dar beijos na boca ao senhor Putin.

A “Europa” (uns antes dos outros, uns mais do que os outros…) sabe o que é, e respeita, a separação de poderes, a limitação do poder do Estado, o sistema de freios e contrapeso pelo qual se controlam e limitam reciprocamente os diversos poderes públicos, bem como estes e a sociedade civil. Sabe o que são, e defende, direitos cívicos, direitos políticos e liberdades individuais.

Sim, sim, sim, bem sei que “a Europa” são muitas realidades distintas e muitas circunstâncias – são as democracias nórdicas, mas também é a Polónia dos gémeos Kaczynski, e tal e tal… Mas a defesa da liberdade, da democracia e dos direitos individuais são valores fundadores da União, e estão longe de ser apreciados, ou mesmo reconhecidos, pelo senhor Putin. Felizmente “a Europa” não é a Rússia.

É verdade que no bocadinho de Europa que nos cabe o Governo age contra a liberdade de expressão quando protege a directora da DREN que dispensou um funcionário (nota de redacção: o professor agora dispensado já é a 6ª vítima desta directorzinha) por ter dito uma piada (ou um insulto, para o caso é igual) sobre o primeiro-ministro; age contra o Estado de Direito quando protege a governadora civil que atropela a lei para marcar umas eleições sem respeito por direitos consagrados; age contra a liberdade de imprensa quando promove leis para a comunicação social que visam pressionar, intimidar e limitar o trabalho dos jornalistas (nota de redacção: e quando, ilegalmente, pede listas de nomes dos trabalhadores que aderiram à greve de ontem).

Se a ideia de democracia de Sócrates é assim – claustrofóbica e musculada, com um Estado autoritário e intrusivo – quem lhe pode dar lições, de cátedra, é Putin. Felizmente Portugal não é a Rússia. Infelizmente Sócrates envergonha-se dessa diferença.

P.S.: Aguardam-se com expectativa os comentários do primeiro-ministro sobre a reluzente democracia venezuelana.

Filipe Santos Costa in Expresso Online


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