Filho estás perdoado

17 10 2007

O maior banco privado português perdoou 27 milhões de euros de dívidas a um dos seus accionistas e ao filho do fundador. Tal benevolência certamente nunca chegará a premiar as centenas de jovens eufóricos que animam a campanha crédito à habitação do millennium BCP – prontos para “virar a vida de pernas para o ar” à procura de “um T2 com vista para o mar” e de um “carro com tecto de abrir”.

Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades. Provavelmente não fossem as guerras de poder dentro do BCP e nada se teria sabido: 12 milhões de euros foi quanto o banco perdoou a Filipe Jardim Gonçalves, filho do fundador e Presidente do Conselho Geral do BCP, Jorge Jardim Gonçalves. A vistosa quantia (que dava para pagar pelo menos uns 40 T2 com vista para o mar) refere-se às dívidas de cinco empresas, consideradas pelo banco “incobráveis”, dada a ausência de património.

Bastou um só dia para que se soubesse que também o accionista José Goes Ferreira tinha sido acarinhado pelo seu banco, desta feita num perdão de juros de 15 milhões de euros. Conta o Público que estes dois casos se vêm juntar a outro mais antigo: José Jorge Valério, outro dos fundadores do BCP, já tinha sido brindado com um perdão de 40 milhões de euros.

Em comunicado, o BCP esclarece que não foi “reportada nenhuma irregularidade ou desvio da normalidade”. João Caiado, especialista em Direito Comercial e Financeiro, ouvido pela TSF, revelou que este tipo de perdão “é normal”. “O que acontece é quando não há capacidade de recuperar o crédito, os bancos fazem o possível para recuperarem o que seja possível e isso às vezes implica perdoar uma parte dos juros, ou uma parte do capital e dos juros”. Resta saber quem merece o perdão e quem não merece. Para outro especialista, Paulo Tarso, “normalmente” os bancos exigem a responsabilização individual dos sócios das empresas, com “garantias do seu património pessoal”. Alguém acredita que o banco do pai resgatasse as casas e os carros do filho?

Sorte diferente tiveram os pequenos investidores que o BCP pôs em tribunal para reaver créditos em falta (Jornal de Negócios, 16/10/2007). Nestes casos, a normalidade do perdão não funcionou. Como também nunca vai funcionar para aquelas centenas de jovens eufóricos que animam a campanha crédito à habitação do millennium BCP– prontos para “virar a vida de pernas para o ar” à procura de “um T2 com vista para o mar” e de um “carro com tecto de abrir”, a quem o BCP promete o el dourado. O que acontece àqueles que não podem pagar? É-lhes perdoada a dívida? Não. Se possível, fica-se-lhes com a casa, o carro, e mais o que houver.

Mas o país das maravilhas com que o BCP e outros bancos vêm aliciando os jovens deste país que não são filhos de banqueiros, com as suas campanhas coloridas, melódicas e irradiadoras de felicidade, contrastam com a crueza da realidade. É por isso que a maior parte não vai na conversa. Como bem desmontaram os gato fedorento, numa fabulosa sátira musical a terminar o seu último programa, mesmo os que à primeira vista se deixam embalar afinal percebem que se calhar para o T2 não vai dar, nem para o T1, nem para o T-zero arrendar. Ou não fosse esta a primeira geração a viver pior do que os seus pais.

Para a maior parte dos jovens não há mesmo perdão que console. Nem dos bancos, nem de um governo, que este ano reduziu para metade os apoios ao arrendamento jovem. O perdão só tem dois sentidos: dos bancos para os seus ente-queridos e dos governos para os bancos. Uma das empresas de Filipe Jardim Gonçalves tinha como sócia principal a Crystal Walace, sediada no off-shore de Gibraltar. Perdoada duplamente: nem impostos, nem cobranças de dívidas. Com padrinhos destes…

No dia que se seguiu à polémica, o Banco de Portugal não quis comentar. Mas o silêncio era demasiado desresponsabilizador e Vítor Constâncio lá deixou escapar a “intenção de averiguar” embora salientando sempre que não “está em causa a credibilidade das instituições financeiras em Portugal”. E não podia dizer outra coisa. Bancos e Governo de mãos dadas, tudo bons rapazes, como pais e filhos que se querem. Os benefícios fiscais à banca atingem milhões todos os anos. Para os que não são filhos do banqueiro, o bom coração tem limites. Os empréstimos aos estudantes, anunciados com pompa e circunstância, vão ter que ser pagos até ao último tostão dos seus juros. E se o estudante chumba mais do que uma vez, zás, tira-se-lhe o tapete. Sem perdão.

Miguel Reis in Esquerda.net


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