Quem vai ‘mudar’ o Mundo?

Cai hoje o pano sobre uma campanha eleitoral sem precedentes na política americana e que será recordada como uma das mais emocionantes de sempre: esta noite, será feita história se Barack Obama for o primeiro afro-americano eleito Presidente ou se Sarah Palin entrar na Casa Branca.

“Disseram que este dia nunca chegaria. Disseram que ambicionávamos de mais, que queríamos chegar demasiado longe”, dissera Obama, a uma multidão entusiasta, depois da vitória nos caucus do Iowa, em Janeiro. A campanha tinha começado e o senador do Illinois era tudo menos o favorito nas primárias democratas – hoje, poderá ser consagrado Presidente.

Esse é o sentido da totalidade das sondagens, que na véspera da eleição atribuíam o favoritismo ao democrata. Os dez inquéritos que diariamente medem a intenção de voto da população apontavam diferentes intervalos a separar Barack Obama de John McCain, mas uma média de todos os resultados colocava a diferença nuns confortáveis sete pontos.

Obama também é favorito à vitória em meia dúzia de estados que votaram republicano nas últimas eleições e cujos resultados somados podem atirar a sua votação no colégio eleitoral para cima dos 300 – de acordo com a projecção de ontem do site agregador de sondagens Pollster.com, o democrata contava já com 311 votos, muito acima dos 270 necessários para selar a eleição.

O percurso do senador do Illinois nestes meses foi épico e impressionante. Virtualmente desconhecido na cena nacional há um ano, afligido pelos fantasmas da raça, do nome com sonoridade islâmica ou da falta de experiência, Obama conduziu uma campanha quase sem erros. A sua candidatura resistiu a todas as pressões, mantendo uma organização perfeita e uma consistência de mensagem que contrastou com os percursos erráticos de Hillary Clinton e de John McCain.

Para além da vitória

Uma vitória de Obama poderá ter repercussões substanciais. Os analistas falam numa nova dinâmica e num novo alinhamento, antecipando um ajustamento ideológico do país. “Estamos a falar do redesenho do mapa político, com as regiões azuis e vermelhas a mesclarem-se em grandes manchas púrpuras”, notava o The New York Times.

Esse resultado deixará o Partido Republicano à beira da implosão. Teria sido difícil ao campo conservador arranjar um nomeado melhor do que o John McCain – e na verdade o velho “rebelde” fez uma campanha formidável, tendo em conta que correu num ambiente muito adverso.

“Nós gostamos de contar a história de uma eleição através dos candidatos e das suas sucessivas peripécias, mas desta vez há forças muito mais vastas em acção”, observa Thomas Patterson, professor da John F. Kennedy School of Government da Universidade de Harvard.

Para o especialista, uma série de outras questões levantadas no curso da campanha continuarão sem resposta após as televisões anunciarem o nome do próximo Presidente.

“Será que esta eleição foi o fim da chamada ‘Revolução Reagan’? Está a América preparada para ultrapassar as suas divisões raciais? Poderá uma nova geração de eleitores assumir-se como a nova força da política americana? Até que ponto os eleitores estão preocupados em projectar uma nova imagem do país no mundo? O que é que significa, hoje, ser conservador?”, para enumerar algumas.

A América de hoje não é a mesma que elegeu George W. Bush. Nem sequer é a mesma do início da campanha. Nessa altura, era a Guerra do Iraque, a imigração ilegal que preocupava os eleitores; agora, a economia domina tudo.

Grandes temas

Foi uma muito longa campanha, que funcionou como um veículo para a América abordar grandes temas – o racismo, o sexismo, o patriotismo, a religião e mesmo o socialismo -, discutidos de uma forma como os americanos não estavam habituados (e os americanos não estavam habituados a tanta discussão: os concorrentes democratas fizeram 26 debates televisivos e os republicanos 21).

“Não sei se esta corrida vai ser julgada pelas barreiras que foram tombadas, pelos paradigmas que foram desfeitos, pelas paixões que despertou ou simplesmente pela expressão avassaladora dos números: os 85 por cento de americanos que acreditam que o país não está na direcção certa ou os 700 milhões de dólares que Barack Obama conseguiu recolher para a sua campanha”, escrevia Frank Bruni no The New York Times.

Esta também foi uma eleição que pôs em causa a cultura e as gerações. Os que vivem dependentes do blackberry e dos shots de café expresso, e os que estão “agarrados às armas e à religião”, como descreveu Barack Obama numa tirada controversa. As “Wal-Mart moms” e as “hockey moms” personificadas pela governadora do Alasca Sarah Palin. Mas talvez o facto mais significativo desta campanha tenha sido a ressurreição da política enquanto actividade nobre, provando que o divórcio dos eleitores não é inevitável.

Com um presidente cessante francamente impopular, com a opinião pública esmagadoramente a considerar que o país avança na direcção errada, há um sentido de urgência nesta eleição que não encontra paralelo na história recente.

Os Estados Unidos estão envolvidos em duas guerras e num combate global ao terrorismo; vivem sob a ameaça de uma recessão económica; nunca tiveram uma imagem tão desgastada no resto do mundo e nunca viram o seu poderio militar, tecnológico e intelectual tão ameaçado.

E, ainda assim, a campanha eleitoral foi sobre a esperança, o optimismo e a promessa de um país melhor. Parafraseando o romancista britânico Charles Dickens, “são os melhores dos tempos, os piores dos tempos” – e hoje, na América, vivem-se os dois.

in Público

E o mundo aguarda… 😐


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