Quem quer matar Deus?

“Deus provavelmente não existe, de modo que deixe de se preocupar e goze a vida”. O inusitado slogan vai decorar 30 autocarros de Londres, no Reino Unido, durante todo o mês de Janeiro.

Conscientes de que na era da imagem até as guerras de religião podem ser travadas em cartazes publicitários, os ateus britânicos apelaram ao lema para tentar convencer as pessoas de que Deus é uma invenção. Por iniciativa da British Humanist Association (BHA) e do seu presidente, o professor Richard Dawkins – reconhecido teórico da evolução, catedrático na Universidade de Oxford e autor de vários livros de divulgação científica, como “A Desilusão de Deus” (Casa das Letras) -, numa iniciativa sem precedentes mas que reflecte o aparente regresso do ateísmo militante, tão vigoroso na época das Luzes (século XVIII), ao Ocidente.

Em Portugal, país de tradições católicas tão antigas que o mito fundador do país atribui à inspiração divina a vitória de D. Afonso Henriques sobre um exército muçulmano muito maior do que o seu nos campos de Ourique, em 1139, o ateísmo é ainda pouco visível. Não obstante, foi já constituída, em Maio, a primeira Associação Ateísta Portuguesa (AAP), que não enjeita adoptar “uma campanha semelhante à de Dawkins”, segundo Carlos Esperança, presidente daquela organização.

Todavia, mais do que a campanha londrina – que poderá estender-se a outros países europeus e até aos EUA -, interessa questionar a que se deve esse fulgor de recusa do divino. Porquê agora? E quais os seus objectivos? E estará de facto a religião em declínio no Mundo Ocidental, ou assume novas configurações? (…)

É possível não acreditar no divino?

O problema de fundo assinalado por Carlos Esperança é, pelo contrário, o maior êxito da BHA: propondo-se angariar os 8064 dólares necessários a um mês de anúncios em 30 autocarros, levou só duas horas para amealhá-los, numa campanha que, iniciada a 21 de Outubro, chegou a Dezembro com mais de 190 mil dólares.

“Os doadores sentem que não têm voz, que o Governo e a sociedade prestam demasiada atenção à religião e aos seus líderes, enquanto ignoram os que não são religiosos”, diz Hanne Stinson, directora da BHA, para justificar a surpreendente adesão.

A iniciativa soma-se a outras manifestações de um ateísmo mais activo na Europa, como a proliferação de ensaios contra a religião e o aumento dos pedidos de apostasía em Espanha e Itália, por exemplo (…). Inclusivamente nos EUA, cujas notas de dólar trazem o lema “in God we trust”, nos últimos anos as associações de não-crentes observaram um crescimento sustentado. E a Secular Coalition for America conseguiu, até, contratar um lóbista no Congresso, Lori Lipman Brown, visando contrariar a influência da religião na arena política. Radical, Dawkins chega a dizer, no seu “best-seller” (1,5 milhões de exemplares vendidos) que “a situação actual dos ateus nos EUA é comparável à que enfrentavam os homossexuais há 50 anos”. Só que, ao contrário dos grupos religiosos, sustenta, o problema dos ateus é que não estão organizados.

Mas começam a ficar. Para o teólogo Anselmo Borges, que acabou de publicar uma colectânea de artigos (“Janela do (In)finito”, Campo das Letras) onde debate também o ateísmo, a nova investida dos ateus e respectivo ensejo organizativo “deve-se ao materialismo e o hedonismo actuais”. Sugere, porém, que “as principais motivações estão, por um lado, no avanço da Ciência, designadamente da genética e das neurociências, que já fornecem muitas respostas sobre o Homem”, e, por outro lado, “no Mal do Mundo”, isto é, “face à violência e à guerra que são geradas em nome de Deus, as pessoas tendem a advogar que seria melhor que esse Deus não existisse. Essa é, aliás, a tese central de Dawkins”, assinala.

No entanto, a militância renovada dos ateus, reflectida na abundância de obras que defendem o ateísmo – por autores tão ilustres como Christopher Hitchens (“Deus não é Grande“, Dom Quixote), Sam Harris (“O Fim da fé“, Tinta-da-China), Michael Onfray (“Tratado de Ateologia“) e John Dupré (“Darwin’s Legacy“) -, não parece ser tanto uma reacção ao terrorismo integrista islâmico, mas antes um ataque às igrejas do Ocidente. A campanha de Dawkins nos autocarros será uma resposta, diz a BHA, “às operações agressivas de grupos cristãos fundamentalistas, que usam os espaços promocionais dos transportes públicos para proselitismo”.

Em Portugal, os objectivos globais da AAP são os mesmos: além de uma “aceitação social do ateísmo”, pretende “erradicar a influência da religião, designadamente da Igreja Católica, sobre o Estado, e o regresso à ética republicana, que é urgente”, diz Esperança, assinalando que no último estudo sobre a matéria em Portugal, de 2002, “cerca de 400 mil pessoas declararam-se ateias ou não-crentes, e não chocaria que hoje fossem cerca do dobro”. Aqui ao lado, Espanha será o caso de maior radicalismo. Após 40 anos de franquismo com apoio da Igreja Católica, a reacção anticlerical dos jovens é muito mais virulenta, e as solicitações de apostasía multiplicaram-se: no primeiro semestre deste ano foram 529, superando o total de 2007 (287) e de 2006 (47).

As estatísticas parecem contrariar, porém, a ideia de que o ateísmo militante estará a crescer na Europa: só um quarto da população é que se declara “não religiosa” e apenas 5% se afirma ateu convicto. De resto, ser ateu é muito mais do que a recusa do Estado confessional ou a indiferença, quiçá o abandono, da prática religiosa: para o teólogo alemão Hans Küng, “o autêntico ateísmo nega todo o tipo de Deus e todo o divino, tanto entendidos em sentido mitológico como concebidos de forma teológica ou filosófica”. Neste sentido, o próprio ateísmo, enquanto experiência espiritual, estará a perder terreno. “A maioria dos não-crentes diz-se, na realidade, agnóstica, pois o ateísmo implica uma profunda convicção sobre uma questão: a não existência de Deus. E a verdade é que todos duvidam”, realça o filósofo francês Michel Eltchannoff.

Essa natureza dubitativa em torno do divino poderá explicar, até, o ressurgimento contemporâneo das superstições, seitas e ocultismos. Em França, país de Descartes e dos Enciclopedistas, as artes divinatórias geram um volume de negócios de 4200 milhões de dólares anuais, isto é, cerca de 15 milhões de consultas por ano, repartidas entre uns 100 mil “profissionais” da bola de cristal, mais os livros de profecias, astrologia e ciências ocultas… Em Portugal, embora falte estatística, a proliferação de anúncios de videntes e quejandos é suficiente para perceber que o negócio prospera, autorizando a tese de que vivemos num Mundo onde o irracional é a norma e grande parte da Humanidade crê em Deus, ainda que cada qual o defina a seu modo.

Aliás, neste contexto torna-se pertinente a pergunta sugerida por Anselmo Borges: “Porque é que a campanha publicitária dos autocarros londrinos declara que Deus ‘provavelmente’ não existe? Porque não dizer logo que ‘Deus não existe’, se há essa certeza?”. Segundo a BHA, porque o “provavelmente” evita ferir susceptibilidades e violar as leis britânicas da publicidade. Mas a melhor explicação talvez radique, afinal, na advertência formulada na Grécia pelo matemático Euclides, 300 anos antes de Cristo: “O que é afirmado sem provas pode ser refutado sem provas”.

in JN

Felizmente, vivemos numa época em que a liberdade religiosa é um bem mais ou menos adquirido na maior parte dos países. No restantes é ter esperança que isso algum dia seja possível… 😕


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30 comments

  1. Que perigo isso. Enjoy life? Sabe como as pessoas curtem a vida pra começar?
    Deus existe e isso é certeza, mas o templo é no interior e com tanta maldade da Igreja, as pessoas ficaram assim querendo o oposto.
    Tudo moderado, meio-termo, morno e equilibrado é melhor.
    Que ótimo post, como sempre.
    Keep up!

  2. Dawkins é um gênio! E fico também com a opinião do André Leite. Cá nas terras de Santa Cruz muito têm crescido as ditas “religiões neopentecostais” e é algo que muito me assusta. Dizer-se ateu aqui é a mesma coisa que dizer que tem sarna e aparece um monte de gente disposto a “curar” a “doença”. Acho valente e sensata a campanha britânica.

  3. Gostei do post.

    Minha opinião: Pessoas militantes radicais como Dawkings só atrapalham o relacionamento entre religiosos e não religiosos. Tanto os religiosos intolerantes quanto os ateus intolerantes são um atraso para nossa sociedade. Vocês tem que entender que cada um tem direito de acreditar ou não acreditar no que quiser.

    Basta de religiosos enchendo o saco de quem não quer ouvir pregação, e julgando as pessoas. Basta de ateus do tipo adolescente revoltado, que agridem a fé das pessoas, sem o menor respeito.

    Ainda bem que temos muitos religiosos e ateus moderados também. =]

  4. Lamento profundamente que uma idéia tão estapafúrdia encontre abrigo em
    mentes supostamente inteligentes. É CLARO QUE DEUS EXISTE. Infelizmente, aqueles
    que negam Sua existência terão prova do contrário, mas será tarde demais…

  5. Sobre os outros comentários: Concordo com o Marcelo….
    Basta termos tolerancia dos dois lados. Extremistas que não aceitam a crença ou descrença do outro são pessoas desrespeitosas e muitas vezes (dependendo da situação) até criminosas.

    Sobre o slogan: Com a maioria das pessoas acreditando em algum Deus “e se preocupando” o mundo já está do jeito que está, imagina se todo mundo resolve “deixar de se preocupar”? E será que os ateus da BHA sabem o que é realmente gozar a vida? Aperentemente não. Dá a entender que para se gozar a vida não se deve acreditar em Deus.

    Sou católico apostólico e sei que gozo minha vida muito bem. Do meu jeito, na minha fé … 😎

  6. Deus existe sim, e o mundo naõ esta deste jeito por que ele deixou e sim por que as pessoas so destroem ao inves de construir, e outra coisa qunato a teoria da evolução por que não tem macaco virand homem ate hoje ?

    1. concordo com eles…Se Deus naum existisse como a terra iria ser feita se foi elii quem criou a terra ii nós…para que possemos transmitiR a palavra delii para outras pessoas!!!

      1. Se eu fosse voces eu naum teria esperanças dee algum diia mataR Deus…pq elii naum pode ser morto por quem naum teem poder para isto!!
        voces estão tentando criar algo pra tirar a atenção daqueles quee querem servir a elii com sinceridade!!!Se eu fosse voces iriam ter esperanças eem mudar o mundo maais siim paara melhor naum para pior!!pensem nisso!!!

  7. Essa é a discussão mais velha do mundo! Daqui a pouco tem um milhão de comentário sobre esta baboseira de Deus existir ou não. Cada um acredite no que quer, ninguém provou ainda que Deus existe, como também que ele não existe. Enquanto vemos guerras por causa de religião, fico imaginando os budistas, são o povo mais pacífico do mundo, talvez porque não exista Deus nesta religião. As religiões que tem deus, seja éle Alá, Deus, Zeus, só trouxeram morte e destruição, então eu penso, será que precisamos de Deus pra ser feliz?

  8. alguém criou isto tudo que vemos.que seja a trilhões de séculos.se tudo veio de uma explosão.alguém deu condições que ela ocorrece.com exceção de nós seres humanos,a vida corre em perfeito equilíbrio.eu não acredito que todas as formas de vida surgiram por acaso.são muitas variedades de seres.é imposível não acreditar em Deus.

  9. Não creio nessa oniciência ou onipresença divina mas não entendo o porquê de então existir tudo.O mundo (universo) é real,se existe,alguma força o começou,agora se há propósito é impossível dizer,mas a campanha expôe apenas mais um ponto de vista,se pensarmos em quanto é grande o mundo,muito,muito mais coisas a entender haverão antes que alguém dê um passo definitivo nessa área,puro desperdício de neurônios.

  10. Em relacao ‘as iniciativas dos ateistas lembro-vos o seguinte:
    Estaline era ateu;
    Mao era ateu;
    Hitler ou era ateu ou neopagao (era para onde dava mais jeito).

    Considerar que por se ser ateu e’-se melhor, mais justo, mais humano, e’ tao absurdo como uma pessoa apregoar que e’ boa, so’ porque acredita em Deus.

    No entanto Dawkins ou Pulman afirmam:
    quem e’ religioso e’ mau;
    quem e’ ateu, e’ bom.

    Outra coisa que estes crentes na inexistencia de Deus tem em comum e’ a falta de visao estrategica e de inteligencia historica:
    mais cedo ou mais tarde uma qualquer crenca dominara’ uma sociedade ateia.
    Sempre foi assim!
    E so vos destruirdes o Cristianismo na Europa esta sera tomada pelo Islao.

    Agora escolhei:
    e’ melhor ser ateu entre Cristaos ou entre Islamicos?

  11. Nenhum ateu tem base convincente para tentar provar o que acredita…
    Agora, se para curtir a vida devemos esquecer Deus, logo veremos as conseqüências…

  12. Religião e Deus é dita discussão bizantina, fala-se sobre o universo inteiro para no fim não chegar nem de onde partiu. Sinceramente há diversas coisas que são perfeitamente mais importante e interessante de se comentar e discutir e ainda traga algo de realmente útil. Acredito em Deus e abomino igreja por ser uma forma fácil de arrecadar dinheiro e manipular pessoas, pois religião e valores são basicamente sinônimos. Religião seria uma forma de criar ordem e disseminar valores porém isso pode ser muito bem feito pelas famílias, não sendo necessário todo esse aparato estrutural para sequer pensar que está fazendo o bem. Sinceramente quem é mais próximo do bem, não digo Deus por ser isso impossível na minha concepção, é aquele que consegue avistar um problema, ponderar e encontrar a solução que traga benefícios ou que reduza os malefícios. Mas infelizmente parece que coisas como credo e gosto sexual está mais em voga ultimamente e problemas como o descaso familiar e o risco perdemos o nosso bem mais precioso ficam de lado, sendo sugados por esse nonsense generalizado e destruído por esses temas.
    Mas de qualquer jeito, isso dos ateus europeus apenas revela a falta de limites e de respeito entre as pessoas.

  13. Alessandro,não há macacos virando homem devido não ter sido assim a evolução,ambos descendemos de um ancestral comum,os macacos também evoluiram,a evolução não é mais teoria é fato provado e comprovado pela genética,porém, o tema deus vai além de nossa criação,não somos o centro de tudo e sim mais uma das consequência do ato primordial que foi a criação da matéria,isso sim é a barreira entre existir ou não um criador,embora doa na vaidade do homem somos apenas mais uma das milhares de espécies que evoluiram nesse planeta e nossa inteligência foi nosso mecanismo diferencial para estarmos no topo da cadeia evolutiva.A busca agora é pelos bósons de Higgs(apelidadas partículas de deus),esse papo de descendermos disso ou daquilo já passou,infelizmente para os símios somos sim seus primos.

  14. ateus do mundo…. não se deixem intimidar por adoradores de fantasias…. que seja dado à todos os ateus, o direito de expressar sua indiferença pelo fanatismo estúpido que controla o gado humano burro e crédulo…. sim, não tenho medo nenhum de chamar essa “sobra”, este “resto humano” de gado…… passou da hora desse povo ser relegado ao seu VERDADEIRO papel na evolução humana…. são os ateus os VERDADEIROS responsáveis pela evolução da tecnologia e do conhecimento, enquanto que criacionaistas só se preocupam em responsabilizar suas ilusões e delírios pelos avanços da raça humana….. se não fossem por cientistas que desafiaram a “palavra sagrada da religião”, ainda acreditaríamos que a terra gira ao redor do sol…. chega de fantasias…. sou ateu SIM e digo mais…. não gostou? peça a seu “ser supremo” para me convencer de que estou errado….

  15. Eu acho que deus é mais uma mentira, e se ele existe ela anda a fazer merdas ou a dormir ele é o meu inimigo porque ele não ajuda sò causa sofrimento

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