Pessoal

O X&X faz 7 anos!!

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O Xicórias & Xicorações completa hoje 7 anos! 🙂

Apesar dos posts cada vez mais raros, o blog continua a ter uma actividade muito acima do que seria de esperar, especialmente devido a alguns artigos muito bem cotados nos principais motores de busca, que continuam a trazer muitos internautas até ao X&X, principalmente do Brasil, Portugal e Estados Unidos!
Mas é interessante ver a proveniência dos visitantes no último ano, por ordem decrescente:

Brasil, Portugal, Estados Unidos, Angola, França, Reino Unido, Moçambique, Suíça, Japão, Alemanha, Espanha, Canadá, Itália, Argentina, Bélgica, Cabo Verde, Luxemburgo, Islândia, Holanda, México, Filipinas, Paraguai, Indonésia, Noruega, Colômbia, Irlanda, Chile, Austrália, Senegal, Índia, Namíbia, Peru, Polónia, Taiwan, Turquia, Rússia, Finlândia, Suécia, Quénia, Macau, Ucrânia, Hong Kong, Dinamarca, Bolívia, África do Sul, Uruguai, Arábia Saudita, Vietname, Benim, Israel, Tailândia, Emirados Árabes Unidos, El Salvador, Roménia, Líbano, Grécia, Paquistão, Venezuela, Hungria, Nova Zelândia, Sérvia, Bangladesh, República Checa, Marrocos, Equador, República da Coreia, Singapura, Argélia, Nigéria, Guiné-Bissau, Letónia, Costa Rica, Estónia, Timor-Leste, Guiana, Panamá, Costa do Marfim, Malta, Ilha de Jersey, Lituânia, Áustria, Eslovénia, Belize, Porto Rico, Eslováquia, Qatar, Mongólia, Guadalupe, Geórgia, Bulgária, Chipre, Jordânia, Albânia, Gana, Moldávia, Nicarágua, Iraque, Honduras, Gabão, Arménia, Bahamas, Mauritânia, Tanzânia, Zâmbia, China, Ilha de Man, Bielorrússia e Camarões.

Praticamente de todo o globo! 😀

Muito obrigado a todos que contribuem para este sucesso!

Vemo-nos por aqui! 😉

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‘Fim do mundo’ faz bem!! :)

E de repente o Xicórias & Xicorações é completamente invadido!!

Desde a publicação do texto sobre o fim do mundo, na passada 6ª feira, e principalmente durante o dia de sábado, recebemos vários milhares (sim, milhares!) de visitas, dezenas de comentários, e muitos link’s para o blog!

Wordpress Blogs of the Day

Como se pode ver, o X&X esteve no topo dos blogs em português, durante todo o dia de sábado, continuando ainda agora na lista dos mais visitados…

Por tudo isto, só posso dizer que o mundo pode acabar quantas vezes quiser! Só faz bem… ;D

Quem salta do inferno cai no tecto do céu

O meu avô dizia-me muitas vezes que um homem sem amigos não é nada. Pode ter tudo na vida, garantia ele, dinheiro, casas, mulher, filhos, saúde

(e continuava a lista)

mas se não tiver amigos é um infeliz, um pobre de pedir. Eu olhava o meu avô sem acreditar porque as pessoas crescidas são tão ignorantes e com tanta falta de sentido das coisas essenciais: nunca conheci nenhuma, por exemplo, que juntasse, como eu fazia, pirilampos numa caixa de fósforos para o caso de não haver electricidade. E punha bocadinhos de erva dentro para os bichos comerem, porque não há quem não saiba que os pirilampos adoram pastar. Portanto as sentenças do meu avô passaram-me ao lado e essa acerca dos amigos entre elas. Mesmo que não tivesse mais ninguém tinha Flash Gordon, Mandrake, Tintim, Batman, que me pareciam muito melhores que os sujeitos que com ele com ele privavam, alguns de risca do cabelo na orelha, alguns de bigode, alguns de boquilha e quase todos com a mesma pergunta

– Que idade tens tu já?

impressionados, com um suspiro de inveja, pelos meus oito anos, de que se esqueciam logo a seguir para falarem de coisas incompreensíveis e chatíssimas enquanto, sentado no tapete, eu espreitava para dentro da caixa de fósforos na esperança de uma claridade azul e nem uma pontinha de claridade azul para amostra. Mas, ao contrário dos sujeitos do meu avô, se me apetecesse subia uma parede inteira mais depressa que o Homem-Aranha, só que não estava para aí virado e havia o risco da minha avó aparecer a ordenar-me

– Sai imediatamente desse décimo oitavo andar, estás maluco?

e lá vinha eu por aí abaixo, contrariado e infeliz, com medo que ao jantar me cortassem no doce. A prova que os amigos eram desnecessários estava em que Tarzan, Clark Kent, Cisco Kid e outras criaturas do mesmo gabarito eram todas de poucas relações, demasiado ocupadas em actos heróicos e para mais cheios de cabelo. Além disso os amigos do meu avô casaram com senhoras que cheiravam imenso a perfume, me enchiam as bochechas de baton peganhento e se queixavam das costas. E, cúmulo dos cúmulos, achavam-me amoroso, adjectivo que não me passaria pela cabeça aplicar a Batman. Queria ser heróico, não queria ser amoroso, queria respeito, não queria que se enlevassem com os meus olhos azuis e o meu cabelo loiro, queria que me admirassem, não queria ser beijobicado, queria que os maus

(por azar não conhecia nenhum)

se aterrorizassem só de pensar em mim queria, num gesto mágico, que as pistolas desaparecessem das mãos dos gatunos, fulanos pérfidos de riso satânico que, vá-se lá saber porquê, não se aproximavam de mim. Vá-se lá saber porquê uma ova: no fundo sabia: a minha imensa força interior e o meu infinito poder aterravam-nos, e fugiam de mim a sete pés

(adoro esta expressão)

no pânico que os entregasse à polícia algemados e sovados. Portanto, mais uma vez o meu avô não tinha razão: ele que se entretivesse à vontade com os seus sujeitos de risca na orelha e me deixasse resolver as grandes questões das viagens interplanetárias, da magia ordenadora do mundo e da administração da justiça.
E quando faltasse a luz

(a minha avó espreitando a rua

– É geral)

ou um fusível rebentasse aí vinha eu com a minha caixa de fósforos de pirilampos herbívoros solucionar o problema, introduzindo na escuridão uma fosforescência salvadora. Haviam de admirar-me

– O pequeno é extraordinário

e o meu parecer tornar-se decisivo acerca do problema fundamental da abolição da sopa e da troca da açorda por arroz doce, de menor relevo mas merecedor de um exame cuidado: pataniscas de bacalhau com arroz doce é de certeza melhor que pataniscas de bacalhau com açorda, para não mencionar jaquinzinhos com leite creme e a mousse de chocolate com mariscos: a revolução social vai de par com o progresso culinário. E porque carga de água devo lavar os dentes à noite ou sacudir a pilinha depois de fazer chichi em vez de molhar os calções ou salpicar os azulejos de pingos? Que culpa tinha eu que o pirilau não fungasse, puxando para dentro de si o amoníaco que sobrava? Meu Deus como a existência de um miúdo é um inferno de incompreensão por parte da família. Daí pensar que saltando desse inferno, num pulo de Homem-Aranha, caía no tecto do céu, repleto de chocolates de leite com amêndoas e hamsters a pedalarem nas suas rodas em milhares de gaiolas, sem cópias, sem ditados, sem afluentes da margem esquerda do Tejo e outros conhecimentos inúteis que a Flash Gordon não serviam um pito nem nunca li que Batman os soubesse de cor. E não consta que senhoras de perfume violento lambuzassem Tarzan a queixarem-se das costas.

(Lembro-me de uma com um sinal peludo no queixo.)

Nasci para vôos e perseguições, não para responder a perguntas distraídas

– Que idade tens tu já?

e sem sentido, porque quem nasceu em Kripton não conta o tempo por anos. Informava amuado

– Fiz oito em Setembro

e era uma sorte para eles não os evaporar da poltrona com um estalinho dos dedos. Em boa verdade devia preveni-los

– É uma sorte não os evaporar da poltrona com um estalinho dos dedos

passar de Mandrake a Tarzan e percorrer o corredor de liana a liana, com uma macaca no ombro, a fim de rapar o tacho de doce de coco com o indicador vagaroso, se não fosse, ai de mim, ter tanto medo do escuro.

António Lobo Antunes in Visão

Mais palavras para quê?! 😕

Ler também Crónica ao espelho, Agora que já pouco te falta, Crónica do hospital


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Feliz Natal!!!

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

História Antiga de Miguel Torga
Antologia Poética
Coimbra, Ed. do Autor, 1981

O Xicórias & Xicorações deseja a todos os seus visitantes e amigos um FELIZ NATAL, cheio de alegria na companhia daqueles que nos são mais queridos.

Obrigado pela vossa amizade!

Um abraço!

R & G


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Crónica ao espelho

Estou a escrever com a esferográfica do hotel, na única mesa do quarto, diante do espelho: levanto os olhos e o que pensam ser a minha cara ali. Como na porta existe um sinal de proibição de fumar acendo um cigarro. Conheço centenas de quartos de hotel em não sei quantos países, e no entanto a sensação de ficar sempre no mesmo. Provavelmente é o mesmo, que vai mudando de cidade a perseguir-me. Em todos escrevi, aproveitando uma horinha à tarde, dez minutos à noite a fim de não perder a mão. No televisor ligado, sem som

(tiro sempre o som àquilo)

um concurso idiota que ajuda a compreender que não me enganei: em todos os televisores de todos os hotéis da minha vida concursos idiotas, um apresentador ridículo, uma assistente que merecia melhor sorte, por exemplo estar aqui comigo. E daí não: ao fim de meia hora já não conseguia aturá-la, apesar do penteado, apesar do vestido, apesar das pernas. Mulheres que me fazem lembrar o aviso nos rótulos dos xaropes: agite antes de usar. Voltei ao hotel agora, a seguir aos autógrafos, é muito tarde, estou cansado. As pessoas que me lêem comovem-me: fiz um livro diferente para cada uma delas, com palavras diferentes, do mesmo jeito que um alfaiate trabalha por medida, porque a vida de cada um é única, nunca existiu ninguém antes. As experiências podem ser parecidas, a maneira de vivê-las diversa: somos mundos sem fim. Guardo olhos, sorrisos, vozes, dedos que apertaram os meus, uma comunhão indizível. São eu e eu sou elas, falando para elas, por elas. Tanto sofrimento também, algumas alegrias, um imenso, impartilhável silêncio que deseja, com toda a força da alma, ser escutado. Durante os autógrafos oiço muito mais do que digo, escuto expressões, olhares, gestos, o som de um sorriso. Isto no Porto, sexta e sábado, com gaivotas pequeninas

(nunca tinha visto gaivotas pequeninas)

nos penedos da foz, dúzias de gaivotas pequeninas nos penedos da Foz, a aprenderem a ser, na manhã de um azul tão português e imenso mar à nossa frente, sob toneladas de sol, a pura alegria de estar vivo. Ganas de ir à Boa Nova na esperança de encontrar António Nobre, que me retratou inteiro nos seus versos. E as gaivotas pequeninas para aqui e para ali, confundidas com o cinzento das rochas. Estou a meter estas palavras no papel, sem crítica, não pretendo ter graça, não pretendo ser profundo, não pretendo impressionar ninguém: recuperei a infância sou um miúdo espantado. E, tal como quando era miúdo, não morrerei nunca, qualquer fada obscura parece condenar-me à felicidade, um dia dura que tempos, peguem-me ao colo. Uma ocasião, com cinco ou seis anos, Mozart deu um concerto para a corte francesa. Mal começaram os aplausos foi a correr para os joelhos da rainha Maria Antonieta e pediu

– Goste de mim

Será a sede de amor uma doença grave? Ponho os nomes das pessoas nos livros, ponho o meu, palavras entre os dois nomes e ficamos unidos. É bom conhecer quem me lê, afinal existem leitores, os livros não saem sozinhos das livrarias, sinto-me grato. As gaivotas pequeninas sempre em bando, junto umas das outras, com medo. O Zé Francisco ao meu lado

– Já tinha visto gaivotas pequeninas?

e nunca tinha visto gaivotas pequeninas, há imensas coisas que nunca vi. Também ando a aprender a ser. Escrevi sobre esta praia em junho, perdão, em maio, perdão, em maio ou junho não recordo ao certo. Se calhar esta crónica vai ficar uma chumbada, são desenhos sem interesse na margem do papel. Que importa? Sou feito destas minúsculas coisas igualmente, destas patetices que me desfiguram o perfil, desta pobreza de emoções:

– Já tinha visto gaivotas pequeninas?

e a cara diante do espelho opaca. Deito fora estas folhecas? Mando-as para a revista assim? Abro a janela toda e um bêbado lá em baixo na avenida, em lentidões orgulhosas, equilibrando o corpo que lhe foge numa atenção preocupada. De vez em quando pára a insultar sombras, ameaçando-as com a manga solene, janelas cegas, quase nenhuma luz nos prédios fronteiros: a minha cara continuará no espelho à espera que eu volte? Espreito e lá está ela de facto

– Quem és tu?

não, antes

– Quem és tu por baixo dessa cara?
que parece avaliar-te, medir-te. O bêbado lá ao fundo, longe, suponho que zangado ainda. Apetecia-me passear na Ribeira agora, apetecia-me uma trouxa de ovos, apetecia-me o teu corpo, apetecia-me que o vento me despenteasse, apetecia-me benzer-me ao passar pelo oratório da minha avó. Apetecia-me conversar com Santo Agostinho acerca do Tempo, apetecia-me reler Ovídio. Mas vou levantar-me daqui porque acabei, estender-me na cama, esvaziar-me, não pensar em nada. Ou seja: pensar nas gaivotas pequeninas, pensar no mar. Qual das ondas sou eu? Desfaço-me sem ruído, desapareço. Ficam os meus livros na areia. Talvez alguém descubra, daqui a imensos séculos, os meus livros na areia. Não são livros, aliás: são apenas as marcas dos passos de um homem.

António Lobo Antunes in Visão


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